Robôs ficaram com os empregos, o governo te dá um quarto e seu trabalho é assistir televisão. Testamos Dystopicon e descobrimos uma distopia estranhamente tranquila, engraçada e talvez próxima demais da nossa realidade.
Sabe aquele momento em que você chega em casa, olha para o teto e pensa: “Hoje eu não quero salvar Hyrule, derrotar nenhum boss ou impedir o fim da galáxia. Eu só quero existir”?
Pois bem. Talvez Dystopicon seja exatamente o jogo para esse momento.
Desenvolvido pelo estúdio independente espanhol Palitroque, Dystopicon é um simulador de vida com uma proposta distópica, retrofuturista e cheia de críticas à automação, ao consumo e principalmente à nossa relação quase simbiótica com as telas.
E o mais engraçado é que sua premissa parece absurda por aproximadamente cinco segundos.
No mundo de Dystopicon, os robôs substituíram os humanos no mercado de trabalho. Você é um cidadão de Classe 2, recebe uma moradia do governo e precisa cumprir uma função importantíssima para a sociedade:
assistir televisão.
Sim.
Você é pago para ficar olhando para uma tela.
Pensando bem, se acrescentassem um celular na mão e três redes sociais abertas, isso aqui deixaria de ser ficção científica e viraria uma terça-feira qualquer.
Bem-vindo ao futuro. Seu sofá está esperando
A dinâmica de Dystopicon é relativamente simples.
Você vive em um quarto fornecido pelo governo, assiste à televisão para receber seu salário e precisa decidir como gastar esse dinheiro para sobreviver, ter acesso a serviços e conseguir alguns pequenos luxos.
Só que por trás dessa rotina aparentemente banal existe todo um sistema.
Você pode obedecer ao regime, colaborar com o Partido, tentar hackear sistemas, participar da resistência, apostar na loteria e tomar uma série de decisões que mudam o destino do seu personagem.
E aqui está uma das coisas mais interessantes do jogo.
Enquanto você administra necessidades extremamente mundanas, Dystopicon vai colocando pequenas decisões políticas e sociais no caminho. Aos poucos percebemos que aquela rotina confortável também funciona como uma prisão.
Você está sobrevivendo.
Mas está vivendo?
Calma, Decora Games não virou aula de filosofia às 8h da manhã. Prometo.
São 14 maneiras diferentes de dar ruim
O jogo possui 14 finais possíveis, então suas decisões realmente interferem no destino desse pobre cidadão que só queria assistir televisão e receber o salário no fim do mês.
No Modo História, avançamos por cinco cenários diferentes, além de um cenário secreto, enquanto novas mecânicas vão aparecendo.
Dependendo das suas escolhas, você pode crescer dentro da burocracia estatal, abraçar a rebeldia ou acabar em um campo de reeducação.
Basicamente, o jogo oferece várias possibilidades para descobrir quantas maneiras diferentes existem de ser esmagado pelo sistema.
Fofo.
Há também o Modo Desafio, que tira boa parte das distrações narrativas e coloca o foco diretamente no gerenciamento dos recursos. O objetivo passa a ser economizar dinheiro suficiente para escapar daquele quarto.
É quase um “The Sims: boleto edition”.
A sátira funciona justamente porque não grita
Uma das coisas que mais gostei em Dystopicon é que ele não precisa ficar jogando sua crítica na nossa cara o tempo inteiro.
A própria mecânica já é a piada.
O conceito nasceu de uma inspiração do desenvolvedor Juan Felipe Molina em Ubik, clássico de Philip K. Dick, especialmente da ideia de precisar pagar para utilizar objetos e serviços cotidianos.
Dystopicon pega essa lógica e mistura com um comportamento extremamente contemporâneo: nossa capacidade quase sobrenatural de passar horas olhando para telas.
O resultado é uma distopia que consegue ser absurda e familiar ao mesmo tempo.
E talvez seja justamente aí que esteja sua melhor sacada.
Mas Pandora, você passaria horas jogando?
Não.
E aqui entra uma questão completamente pessoal.
Dystopicon é legal, mas é parado.
Não é aquele jogo que me faria olhar para o relógio às 3h da manhã e pensar: “Só mais uma missão”.
Até porque provavelmente a próxima missão seria assistir televisão.
Eu, Pandora, dificilmente passaria muitas horas seguidas nele. A dinâmica é lenta e exige que você entre na proposta.
Só que isso não significa que seja ruim.
Muito pelo contrário.
Dystopicon me parece funcionar melhor como aquele jogo para abrir quando você simplesmente quer desligar um pouco o cérebro.
Sem competitivo.
Sem criança de 12 anos destruindo sua autoestima no multiplayer.
Sem uma árvore de habilidades com 487 opções.
Sem um dragão querendo acabar com o planeta.
Você, seu quarto, uma televisão e uma distopia corporativa silenciosamente consumindo sua existência.
Relaxante, né?
Um jogo para quem precisa desacelerar
Essa foi provavelmente a sensação que mais ficou comigo.
Dystopicon é um passatempo.
Se você gosta de simuladores, gerenciamento de recursos e experiências mais contemplativas, existe bastante coisa interessante aqui, principalmente porque os diferentes caminhos e os 14 finais aumentam a vontade de experimentar outras decisões.
Agora, se você precisa de ação constante para continuar interessado, talvez ele não consiga segurar sua atenção por muito tempo.
No meu caso, eu jogaria novamente naquele momento específico em que quero ficar quietinha, colocar o headset e esquecer um pouco que existem boletos, clientes, notificações, WhatsApp e seres humanos.
E convenhamos: qualquer jogo capaz de proporcionar alguns minutos assim já desbloqueou uma conquista.
Veredito da Pandora
Nota: 6/10
Dystopicon não revolucionou minha vida gamer e provavelmente não vai ocupar minhas madrugadas, mas achei sua proposta divertida, inteligente e principalmente curiosa.
É simples, propositalmente lento e tem uma crítica social escondida debaixo de uma rotina quase confortável.
Por isso, meu 6 não significa “jogo ruim”.
Significa que estamos diante de uma experiência bastante específica.
Para quem gosta desse estilo mais calmo, talvez a nota seja facilmente maior. Para quem espera ação, adrenalina e acontecimentos a cada cinco minutos, prepare o café.
Eu gostei justamente como um jogo para passar o tempo e esvaziar a cabeça.
O que é bastante irônico.
Porque Dystopicon é um jogo sobre um sistema que controla as pessoas através das telas…
…e eu relaxei jogando ele na frente de uma tela.
O sistema venceu.
Dystopicon
Desenvolvedora: Palitroque
Plataforma: PC
Gênero: Simulação, gerenciamento e sátira distópica
Nota Decora Games: ⭐ 6/10
Para mais notícias, análises e aquele caos organizado que chamamos carinhosamente de cultura gamer, continue acompanhando o Decora Games.





